segunda-feira, 16 de julho de 2007

Há pessoas que pesam no mundo feito pesadas rochas, impondo sua forma à água das ondas; sua textura ao acariciar do vento. São sólidas, e suas particularidades abrigam insetos; também secam lágrimas que, em poucos dias, ao bater do sol, se transformam em cristais salinos e cheios de luz.Já conheci muitas dessas pessoas, que, como rochas, encontram-se fixadas em algum contexto do mundo, tendo ao redor constante paisagem - com lenta e suave variação de nuvens - e dando pouso seguro às pessoas aéreas como as borboletas.Eu, longe de ser rocha intransigente, sou anêmona, seguindo o fluxo de acontecimentos encadeados entre o céu e o mar. Não me fixo, não porque não quero, mas porque sou sempre arrastada, mesmo contra o atrito nostálgico que me prende a uma confortável concha ou a um afiado coral. Não imponho formas nem textura a ninguém; nem às ondas, nem aos corais, menos ainda às borboletas. Sou esponja, o que toca em mim, absorvo; o que bate em mim, me distorce.E nessa absorbância intensa, mecanismo dinâmico de adaptação, eu provo do mundo. Suas multirealidades misturam-se em mim, meus múltiplos poros recolhem detalhes e impressões. No fim, vivendo na minha insignificância escondida de fundo do mar, não sendo nem forte nem bela, percebo mais do universo do que as imutáveis rochas ou que as aéreas borboletas.

[Clarisse Ricci]

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Ausência

'Por muito tempo achei que a ausência é falta.E lastimava, ignorante, a falta.Hoje não a lastimo.Não há falta na ausência.A ausência é um estar em mim.E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,que rio e danço e invento exclamações alegres,porque a ausência, essa ausência assimilada,ninguém a rouba mais de mim.'

[Carlos Drummond de Andrade]

domingo, 8 de julho de 2007

“Beijar o gato entre as orelhas é uma forma de solidão. Lavar a louça às três da manhã, apreciar muito a própria letra, ouvir a brasa comer o papel do fumo no silêncio também. Acreditar nas estrelas que passam com mais pressa. Deitar sozinho. Às vezes deitar acompanhado também. Ter um casaco de lã cinza-escuro que não lava há dois invernos. Acompanhar um seriado(americano). Achar-se inadequado e esquecido ou achar-se bom demais pros outros. Possuir nesse vasto mundo apenas um cabideiro. Beber destilado em copo plástico, esquecer o aniversário da amiga. Ver televisão com fantasma, ouvir rádio desligado da tomada. Conversar em fila, falar alemão, detestar turista, abrir mão de. Viciar em remédio pro nariz, ganhar na loto, guardar papel de presente, saber cerzir, não ser fascinado pela tecnologia, amar gadgets que não sabe usar. Não amar ninguém. Telefonar a cobrar de um orelhão na chuva pra outra cidade, chamar o garçom pelo nome e ser chamado pelo nome por ele. Concordar que o rock morreu. Escrever sem expectativa, confiar no conselho da manicure, escrever cartas, não enviar cartas. Às vezes mesmo enviá-las é uma forma de solidão. Sentar na segunda fila no cinema, botar bebedouro pra passarinho na janela. Dormir com a caneta na mão.”

Trecho do conto “Inseto”, em Dentro de um Livro.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Ou se tem chuva ou não se tem sol, ou se tem sol ou não se tem chuva

Ou de calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva

Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares

É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo dinheiro e não compro doce, ou compro doce e não guardo dinheiro

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo... e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se isto ou aquilo.

[Cecília Meireles]

"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas
que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desesperohá
calma e frescura ma
superfície intata

Ei-los sós e mudos, em
estado de dicionário."

[Carlos Drummond de Andrade - A Procura da Poesia]


, por que se preocupar com quem inventa ou deixa de inventar as palavras - ou poemas - se elas já estão todas inventadas, só a espera de serem colhidas?


Calo-me. Porque não sei qual é o meu segredo.
Conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós.
Não é segredo difamante. É apenas esse isto: segredo. E não tem fórmulas.
[Clarice Lispector - Água Viva]

sábado, 30 de junho de 2007